Ele estava sentado no canto da saleta, calças num tom claro de marrom, camisa de linho branca, óculos de aros pretos e quadrados. Olhava atento em minha direção.
- Quem está aí? A terapeuta me perguntava insistentemente. Eu, de olhos fechados, não tinha e menor idéia e nem vontade pra responder. Mesmo assim o fiz.
- Um homem, ele está sentado e usa óculos.
- O que ele quer?
Imagine se eu sabia...nem mesmo acreditava em tal presença, ele era um homem ali sentado e ponto final. Na minha infância vivia enxergando fantasmas e isso irritava profundamente minha mãe. Foi ela quem (aos gritos) me persuadiu a nunca mais falar com eles. Disse que eram frutos da imaginação. Todos os dias ela repetia que eu era mentirosa, quando é que iria me emendar? Aos poucos fui distorcendo a alma vidente, destruindo a fé nas minhas visões e me tornei cética em relação ao mundo invisível. Se é invisível, logo, não existe!
Mas hoje o homem estava ali, me olhando atônito e não fazia a menor menção em se retirar. A terapeuta o percebia, cruz credo!, os psiquiatras são mais loucos que a gente. Por fim, achei mais fácil fingir que acreditava naquela presença. Então escutei claramente tudo o que ele veio pra me dizer.
- Como assim? Como assim? Eu posso escrever? Eu sei fazer isso? Sou uma escritora, há milênios essa tem sido a minha tarefa. Porque este é o meu trabalho, sou muito boa nisso!
A coisa aqui agora é só comigo, ninguém interrompe o fantasma e se fez silêncio absoluto na pequena saleta.
A terapeuta havia se mudado pra esse consultório há poucos dias e o aconchegante ambiente ainda não havia ainda recebido o rodapé. Ele olhou para a irregularidade da parede e me perguntou o que eu achava daquilo.
-Sei lá, respondi. Na verdade eu não achava absolutamente nada.
-Se o senhor pretence ao mundo invisível deve saber que eu pedi pra me retirar. Não tenho mais vontade ou planos pra permanecer aqui na Terra. Quanto a discutir decoração, faça-me o favor...
A terapeuta diz: - Estou um pouco incomodada com esse rodapé inacabado...explicou o porquê da coisa...eu fiquei atônita porque ela estava ouvindo tudo, ou intuiu o que dá no mesmo.
Pantaleão, esse era o nome dele perguntou se eu poderia voltar a ter fé na vida, fé no homem e fé no que será.
-Não, eu respondi.
Ele então me propôs um trato: se eu aceitasse publicar esse estória maluca em troca eu receberia a senha e os códigos para a passagem.
-Sem dor?
-Sim, sim...respondeu ele, como quiser.
Então vamos lá escrever o que virá.

Nenhum comentário:
Postar um comentário